Gravura japonesa
Conta-me contos, ama

Não sei, ama, onde era.
Nunca o saberei...
Sei que era Primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha,
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)

E o jardim tinha flores
De que não me sei lembrar...
Flores de tantas cores...
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)

Qualquer dia viria
Qualquer coisa fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
(Filha, o resto é morrer...)

Conta-me contos, ama...
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama
Que eu fui nessa solidão...

Fernando Pessoa



Olá meninos!

Todos gostam de ouvir contar histórias. E contá-las deve ser tão antigo como ter uma criança ao colo...

O que vos proponho aqui é que juntem as palavras para fabricar histórias.
Porém, não deixo a inspiração a vosso cargo, lanço-vos antes um desafio!
Na verdade, fui buscar a ideia a uma autora, Marta Tê, que escreveu um livro/bloco de notas cujo título era, justamente, Desafio: Escrever! . A autora lançava temas e, no final de tais exercícios de escrita, estaríamos aptos a escrever um conto ou uma novela.

Vou apresentar os desafios desta autora (espero não ser processada) na esperança de que os aceitem.

Pensaremos depois na publicação das vossas obras. Se não for possível, sempre podemos reconfortar-nos com os ouvidos atentos de uma criança. Haja criatividade e inspiração!

Helena

05 julho, 2009

Desafio 8

Homem Por Fora, Bicho Por Dentro

Material necessário:
Papel ,Caneta

Inspiração:
Ele sente-se doente. E confuso. Marcou uma consulta num psiquiatra. Está, neste momento, deitado no divã. Exercício: O exercício anterior (Mistério em Forma de Mulher) forneceu-te 5 palavras que terás de utilizar no monólogo deste homem. Ele conta ao psiquiatra tudo aquilo que o preocupa, incomoda e a razão porque o está a consultar.
in, desafio: escrever
Homem por fora, bicho por dentro

- Bom dia, senhor doutor. A natureza desta consulta é porque eu tenho tido uns sonhos estranhos e creio que estou a ficar louco.
O psiquiatra disse ao paciente para ter calma e lhe contar mais sobre esse sonho. Foi então que ele disse que estava a sonhar com a sua falecida mulher e que ela lhe dizia para ele ir ter com ela onde moravam antigamente, quando ela era viva.
O médico decidiu marcar uma consulta de hipnose. Passados quatro dias ele foi à dita consulta e estava bastante nervoso com o que psiquiatra lhe poderia dizer no final da sessão. O doutor descobriu que a mulher não estava morta, como o paciente havia pensado. Estava viva e fazia-lhe bruxarias para ele ficar assim.
O paciente interrogou-se:
- Mas porque é que ela está a fazer isto?! Nunca tive nada de mal com ela, sempre estivemos bem!
Visto isto o psiquiatra tentou explorar mais profundamente aquela história. Uns tempos depois o homem morre de causas naturais e sem explicação. Para além disso, era uma pessoa nova.
________________________________________ David Vivas
O homem trabalhador

Ele sentia-se um pouco doente. Passados alguns dias na mesma condição, marcou uma consulta num médico. Nesse mesmo dia pediu alguns dias de férias e de seguida foi para casa descansar, deitou-se no divã a ver televisão. No outro dia foi ao médico mas o médico não encontrou nada de anormal nele: fez vários exames e só acusou cansaço. O médico mandou-o para casa descansar e fazer poucos esforços.
O homem, em vez de ir trabalhar, no dia seguinte não! Gozou o resto dos dias como a maior parte dos portugueses faz e é por estas e por outras que o país está assim.
Quando regressou ao trabalho parecia um bicho-do-mato a esconder-se dos colegas e dos amigos, só para não trabalhar e para não conviver com as pessoas no trabalho.
________________________________________J. Nunes

Homem por Fora, Bicho por Dentro

Está um homem deitado no divã ao lado de um psiquiatra.
Ele diz sentir-se doente e confuso e para tal marcou esta consulta.
O psiquiatra começa por perguntar se já alguma vez se tinha sentido assim e pedindo para definir o que sentia mesmo ao certo.
O paciente aparenta um ar muito estranho e lambe-se como um animal.
O psiquiatra vê que tem um caso muito bicudo com este homem.
O homem começa por dizer que a mulher fugiu com outro e ele ultimamente não tem dormido e que tem andado a vaguear pelas ruas com a companhia de uma garrafa de vinho.
Acabada a sessão o psiquiatra avalia o doente e vê que ele não é lá muito certo e pensa que a mulher o deve ter deixado por isso.
Passados dois dias o doente volta para outra sessão.
O psiquiatra começa por perguntar como estava e se ainda tinha aqueles sintomas ao que o paciente responde que andava com desejo de comer peixe.
O psiquiatra concluiu que o homem devia pensar que era um animal.
Meu amigo diga-me como e que a sua mulher o deixou – pede ele ao doente. Então o homem começa por dizer que está ali porque os amigos o aconselharam a consultar um psiquiatra, dizendo que ele estava maluco.
Bem, acho que os seus amigos lhe deram um bom conselho mas conte-me a causa de tanta agitação a razão de a sua mulher o ter deixado, para o poder ajudar - continuou o médico.
Sr. Doutor, a minha mulher deixou-me pois ela dizia que eu começava a ter comportamentos estranhos e ela tinha um amante de 89 anos com muito dinheiro. Dada a situação comecei a andar de bar em bar e pelas ruas - continuou o doente.
O psiquiatra pergunta-lhe quais eram os comportamentos estranhos ao que ele responde que certo dia estava num beco e começou a falar com um gato, passando a falar todos os dias com ele.
O psiquiatra viu que a cura do homem não era assim tão fácil e optou pelo internamento num manicómio até que ele recuperasse.
Porém não foi assim. O homem foi para o manicómio e piorou, começou a falar sozinho e a comportar-se como um gato.
______________________________________Fábio Trindade
HOMEM POR FORA, BICHO POR DENTRO

Senhor doutor, só vim à sua consulta porque me obrigaram. É escusado dizer que sou um autêntico bicho por dentro e que as pessoas têm a ideia que uma consulta de psiquiatra é equivalente a uma consulta de malucos. Mas pronto, eu lá vim à consulta para não me chatearem mais...
Pronto ok, até lhe confesso, senhor doutor, que me sinto um pouco embicharado por dentro e até mesmo perturbado cada vez que penso em certas coisas.
Todos os psiquiatras dizem que têm absoluto sigilo profissional mas será mesmo? Se o senhor doutor prometer que esta conversa não sai deste gabinete, então atrevo-me a contar-lhe tudo, para que alguém, ao menos, me tente ajudar e me tente perceber.
Em síntese, limito-me a dizer-lhe que me sinto completamente derrotado pela vida, para além de me sentir completamente desamparado, sozinho, triste, desiludido e magoado com tudo e todos.
Palavras? Para quê? Oh senhor doutor, falar é muito fácil mas o pior é sentir-me como me sinto.
Mais concreto do que isto não consigo: sinto-me um autêntico homem por fora e bicho por dentro.
Se me perguntarem se tenho razões concretas para me sentir assim eu respondo-lhe, imediatamente, que a minha vida já não tem sentido nenhum e soluções concretas para o meu estado já não existem.
Pronto, isto é basicamente o que sinto e mexe cá dentro de mim.
Mas, senhor doutor, peço-lhe por tudo que esta conversa morra aqui neste gabinete, pois já tenho a fama de ser maluco e não necessito de ter mais.
E agora o que faço, senhor doutor?
É possível um homem sentir-se homem por fora e bicho por dentro?
Confesso que no início não queria vir à sua consulta mas agora que me fartei de falar, pelo menos sinto-me mais aliviado e com a ideia que afinal muitas pessoas deveriam passar pelo mesmo que eu, para perderem a ideia que as consultas de psiquiatria são só para malucos.
Por favor, ajude-me senhor doutor.
Sou um autêntico homem por fora e bicho por dentro...

______________________________________Patrícia Narciso

Sem comentários: